Nasci com deficiência visual, causada por toxoplasmose durante a gestação. Tive uma vida normal, mas passei por dificuldades como qualquer outro deficiente. Sofri por não ter informação e por não poder transmitir informação a respeito da minha deficiência, mas nunca deixei de lutar pelo o meu espaço. Estudei em escola pública sem nenhum tipo de acessibilidade. As adaptações foram feitas por mim mesma, e contava com a compreensão dos professores para entenderem a melhor forma de lidarem comigo. Durante minha infância nunca entendi por que não enxergava o que as outras crianças enxergavam, e por que elas não brincavam comigo. Na adolescência tive que pensar em trabalhar para ajudar em casa, e então vieram as dificuldades. Não tinha feito nenhum curso de informática, pois não conseguia visualizar as informações no monitor. Não conseguia ver a placa de um ônibus porque não tinha um aparelho que me ajudasse a enxergá-la de uma certa distância. Assim me questionei: será que existe uma solução para os meus problemas? Em 20005 perguntei ao meu oftalmologista se o que eu tenho é deficiência visual e, se sim, o que eu posso fazer para usar um computador, ver a placa de um ônibus e poder trabalhar para ajudar minha família. Para a minha surpresa ele disse que sim. "Você é considerada deficiente visual, existem associações onde poderá se integrar e aprender a adaptar o seu ambiente de acordo com a sua necessidade". Naquele dia chorei muito.
Por que nunca foram claros com os meus pais? Talvez eu teria aprendido a conviver melhor com as outras pessoas e as ajudaria a conviver comigo. Depois disso fui em busca do que precisava, conheci a Laramara uma associação de assistência ao deficiente visual, iniciei o curso de autonomia, cidadania e mundo do trabalho. Aprendi muito durante este período, conheci pessoas que tinham as mesmas dificuldades que as minhas, compartilhamos experiências, construí novos relacionamentos e aprendi a ter informação e a compartilhá-la. Em 2006 consegui um emprego de recepcionista nessa mesma associação. Em 2007 saí em busca de novas oportunidades e passei a trabalhar como operadora de telemarketing em uma instituição financeira. Em 2009 passei a trabalhar com usabilidade e benchmarking nessa mesma instituição, onde permaneço até o momento.
Todas a dificuldades que passei serviram para que eu entendesse a raiz do problema. A inclusão da pessoa com deficiência só será possível quando a base for reestruturada. Quando falo a base, estou me referindo à educação. Professores melhores preparados e médicos que transmitam a informação correta aos familiares, entre outras coisas. Hoje ajudo no que posso em relação à causa da pessoa com deficiência.
Continuo em busca de novos caminhos; é isso que dá razão ao nosso viver e nos traz bons aprendizados.
